Prefácio do Ficções Completas – Grafatório - 2023

Viagens Para Dentro da Oficina de Arnaldo 

Por Jotabê Medeiros 


Arnaldo Baptista está com tudo e não está prosa. Quero dizer: nem está com os pés fincados no território exclusivo da prosa nem está na cadência pura da poesia, embora sua literatura contenha tudo isso e mais um componente central: o visionarismo.

Reunidos pela primeira vez pelo faro apurado da Grafatório Edições, O Abrigo, The Moonshiners e Rebelde Entre os Rebeldes são três textos do cantor, compositor, pintor, escritor e multiinstrumentista paulistano Arnaldo Dias Baptista, os dois primeiros inéditos, jamais publicados em livro. São textos escritos nos anos 1970 e que poderiam ser classificados como obras de ficção científica, duas mais curtas, uma mais novelística. Todas, entretanto, transcendem a categorização para entrar numa zona de aclimatação filosófica, desbravamento existencial, invenção mística. 

Ficção científica de fundamentos distópicos, erguida a partir de sua definição clássica (uma narrativa de visão técnica e materialista que examina as possibilidades de futuro do ser humano), os textos de Arnaldo se valem de um delicioso hibridismo de dramaturgia recheado de informações técnicas automobilísticas, sociológicas, esgares da linguagem de consumo, cultura pop e manuais técnicos de linha de montagem.

Nessas histórias de Arnaldo, mundos morrem e mundos nascem e entram em colapso e morrem de novo. Personagens de brilho fátuo pontuam as narrativas: Juan Manuel Fangio, a fada Sininho, o maestro Nelson Ayres e seu programa radiofônico Um piano ao cair da tarde convivem com mitologias de perenidade pop, como a Coca-Cola e a Sonata ao Luar (a Sonata para piano n.º 14, Op. 27 nº 2) de Beethoven.

O Abrigo é a história de como um homem edifica seu conceito de autopreservação egocêntrica. A ideia de abrigo antinuclear, abrigo antibomba, abrigo antiaéreo (talvez até anti-Inteligência Artificial, como já se cogita), traz consigo também a ideia de segregação, de crueldade, de elite, a materialização da injustiça e do sacrifício. Arnaldo explora essa encruzilhada ética, mesmo dotando o seu personagem central de algum tino utópico, com um estilo narrativo seco e fluente que parece sugar o leitor para dentro da história.

The Moonshiners, escrito originalmente em inglês, assenta-se sobre a ideia de uma cópula universal, um espraiamento do conceito de célula familiar – com a união do homem com o extra-homem, o viajante interplanetário. As histórias de Arnaldo, escritas na pulsação do fim dos anos 1970, incluem algumas circunvoluções pelo território das incorreções políticas, especialmente da misoginia, mas que são realidades de um determinado tipo de moral que predominou na década seguinte. É possível pinçar as brincadeiras de ironia do autor aqui e ali – Cagmen, o nome de uma das extraterrestres do texto, pode ser compreendido como uma gag (“cage” significa gaiola em inglês, então seria algo como Gaiola de Homens).

A ficção científica Rebelde Entre Os Rebeldes, publicada agora sem pruridos editoriais, em sua integridade, parece ecoar algo de um clássico livro, Zen e A Arte da Manutenção de Motocicletas, de Robert M. Pirsig (1974). Só que sem o ideário típico da contracultura, assentada num individualismo crônico e pela recusa solitária às regras pré-moldadas da civilização. Com seu herói mecânico on the road, Arnaldo mostrava-se à frente do turismo espacial ao estilo Elon Musk, antecipador com suas space shuttles, suas máquinas dotadas de espírito e a progressão de descobertas feitas à luz de um conhecimento analógico, limpo, sem contaminação. Desenvolvido num ambiente de fuga espacial, o texto traz até mesmo uma espécie de tributo à sublevação maquínica de 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick (1968), com a encenação de um confronto com um sucessor do computador Hal 9000. 

O autor desenvolve um ritmo narrativo que encontra raros pontos de comparação com o que já existe na literatura brasileira – talvez somente José Agrippino de Paula tenha roçado esse núcleo desencarnado de psicologismos. “Quando a máquina veio, era um daqueles dias em que tudo nos parece miragem, pois que eu havia comprado até um chapéu”.

Cético em relação à capacidade humana de autogestão, Arnaldo repovoa o mundo para criar uma nova consciência, mas essa consciência também está sujeita à dissipação, à corrupção, ao tédio, num paradoxo angustiante. Todos os textos incorporam a casa como veículo, e esse veículo como um aríete a forçar os limites da expansão humana em direção à sua própria essência, seja em Marte ou debaixo da Terra.

Arnaldo demonstra um radar tecnológico afiado. Já estava ligado nas novas possibilidades de explicação científica do cosmos, como por exemplo a descrição feita por Stephen Hawking, em 1974, dos buracos negros espaciais – estrelas mortas que teriam entrado em colapso e cuja gravidade seria tão forte que nem a luz conseguiria escapar dali. “Divisava-se agora uma espécie de vácuo negro, por onde sentia-se saindo um ventinho gélido trazendo consigo uma poeira do tipo que é comumente descrita nas histórias que envolvem descobertas arqueológicas de lugares que não são visitados há eras”, escreve.

O narrador, nos textos de Arnaldo, está lá e não está lá, é isento e não é, e muitas vezes se deixa apanhar distraidamente na sua própria brecha temporal: “Há momentos em que a nossa atenção, de ordinário tão vaga e paradoxalmente desatenta, se vê obrigada a empurrar para o subconsciente os pensamentos do dia a dia e, nas contingências do momento premente, despertar para uma realidade que por vezes é abrupta demais”.

Arnaldo Dias Baptista, todos vocês sabem, foi o gênio criador do maior grupo do pop brasileiro, além de pioneiro: Os Mutantes. Sua lírica de bandleader, fundamental em sua obra com os míticos Mutantes e na excepcional obra de artista solo, não tem correspondência direta com o que ele desenvolve em literatura, que é algo com extensão mais longa e de artesanato mais compacto. Mas é perfeitamente possível garimpar estilhaços de seu passado aqui e ali: “[…] gemidos guturais (de mutantes, creio eu; seres que haviam sobrevivido de alguma forma às doses mortais de radiação neutrônica e que migravam, provavelmente loucos, pelos campos)”.

A literatura de Arnaldo Baptista parece ter uma conexão direta com a origem latina da palavra “prosa”, que significa comunicação direta, livre – mas não, no caso dele, automática. Enfrentando sua consciência em busca do sentido da vida, Arnaldo escavou passagens para o interior de sua própria odisseia mental. Para compreender a imensa tela que pintou em uma obra multifacetada, ler esses preciosos textos tem efeito semelhante a encontrar um mapa cheio de alfinetes na parede da oficina da mente de Arnaldo – todos eles insinuando um trajeto que não será menos que vertiginoso.