ARNALDO DIAS BAPTISTA

O cantor, multi-instrumentista, compositor, escritor, ambientalista e artista plástico paulistano Arnaldo Dias Baptista nasceu em São Paulo no chuvoso dia 6 de julho de 1948. Filho da pianista, concertista e compositora Clarisse Leite Dias Baptista e do jornalista, escritor e cantor lírico César Dias Baptista, Arnaldo estava fadado a unificar estradas e ventos em seu destino de amplificar sinais sônicos da mente e da consciência. Crescendo num ambiente multidisciplinar, entre aulas de piano clássico, jazz, balé, estudando os idiomas de Dostoiévski, Lewis Carroll e Édith Piaf, Arnaldo Baptista escolheria a via da música para atuar no alargamento das portas das percepções durante seu ciclo vital.

Entre 1961 e 1967, tateando ainda em busca de uma linguagem e de um conceito, Arnaldo integrou bandas pioneiras do cenário brasileiro a partir de 1965, grupos como Wooden Faces, Sand Trio, Six Sided Rockers e O Konjunto. Mas foi com a lenda tropicalista Os Mutantes que ele sedimentou, em parceria com o irmão Sérgio Dias e Rita Lee, – e mais tarde com a entrada de Liminha e Dinho Leme – uma linguagem de abertura cósmica, uma jornada psicodélica de música e imagens que teve o impacto de uma supernova na constelação da música jovem urbana daquela década. Já no seu disco de estreia, Os Mutantes (1968), Arnaldo, destacado compositor, arranjador e ideólogo do grupo, começaria a explorar, de forma insondável até então na cena nacional, bases harmônicas e rítmicas visionárias, distorções e colagens sonoras, coros invertidos, a busca de sons e referências inusitadas – de Guimarães Rosa à Bíblia, dos Beatles à música caipira –, atitude

rebelde e insubordinada para com os códigos viciados da música comercial e de compreensão binária do mundo. Não demoraria muito para que a aventura mágica dos Mutantes chegasse ao cenário internacional, em plena era Beatles & Stones, projetando um futuro referencial para o grupo a partir de um álbum de futurística ousadia, Tecnicolor (gravado em 1970 e lançado em 1999), uma obra-prima submetida a uma hibernação de 30 anos – dado seu grau de antevisão.

Entre 1968 e 1972, os Mutantes gravaram 5 discos referenciais. “Digo e repito: o Arnaldo Baptista é responsável por tudo que aconteceu de 1967 pra frente”, sentenciou, sobre a contribuição do artista, o maestro tropicalista Rogério Duprat, em 1993. Com o fim do grupo, Arnaldo seguiu criando paisagens inexploradas.

Em 1974, com o disco solo Lóki?, Arnaldo dinamitaria mais uma vez as estruturas do rock, prescindindo das guitarras, abraçando tanto a bossa quanto o blues, Chopin e George Martin. Pontuava novos parâmetros para o gênero. Nesse período, Arnaldo foi um dos raros artistas brasileiros a arriscar-se no chamado “one man band record”, realizando o disco super solo Singin’ Alone (gravado por volta de 1980 e lançado pela primeira vez no Brasil em 1982), no qual compõe as canções, toca todos os instrumentos e assina a produção musical. Não era exibicionismo: a ideia era edificar um monolito estético, uma peça de absoluta integridade. O conceito do espaço-tempo de Einstein, as viagens no tempo de Stephen Hawking, os paradoxos da Física, a consciência cósmica e os mistérios da mediunidade: tudo estava embalado naquela visionária viagem. Baseado num céu genuíno, veio em seguida o voo underground, quando criou a banda Patrulha do Espaço, antecipando horizontes para o blues rock nacional, o hard rock tropical, as fronteiras inalcançáveis da improvisação e da cor de uma música eterna e ternamente jovem.

Artefato admirado em todos os quadrantes do planeta por seu visionarismo, a música de Arnaldo Baptista foi saudada ao longo dos anos por artistas de diferentes esferas, como Kurt Cobain, Sean Ono Lennon, Tame Impala, Beck, David Byrne, Radiohead, Stereolab, Tortoise, Devendra Banhart, High Lamas e Wondermints. Em 1993, quando esteve no Brasil, Kurt Cobain, do Nirvana, confessou sua admiração pelo vanguardismo do ex-Mutante: “Arnaldo, tudo de bom pra você e cuidado com o sistema. Eles te engolem e te cospem fora, como o caroço de uma cereja marrasquino”, escreveu o roqueiro estadunidense.

A advertência de Kurt Cobain revelava uma visão arguta: cerca de uma década antes, em janeiro de 1982, alvejado por profunda depressão, Arnaldo tinha sofrido em São Paulo um acidente devastador, que resultara em um traumatismo craniano. Sua condição agora neurodiversa impulsionou Arnaldo a ampliar seu leque de expressões e, a partir de então, produzir maravilhas que questionam cânones e arcabouços (livros, turnês, recitais, telas & acrílicos, novas parcerias e exposições). Sua atuação passa a gerar frutos em outras esferas da cultura pop.

Reconhecido como um equivalente brasileiro de mentes febris da arte internacional, como Syd Barrett, do Pink Floyd, Frank Zappa ou Brian Eno, do Roxy Music, o bruxo da Pompeia segue inabalável sua saga de guru que atua em territórios onde não chegam os conceitos triviais de criação e sensação, de transfiguração e de descondicionamento.

Jotabê Medeiros

 

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