Transmigração

TRANSMIGRAÇÃO
Exposição Individual e Ocupação (2016)

Em sua quinta exposição individual, Arnaldo Dias Baptista (nascido em São Paulo em 06 de julho de 1948) compartilha, pela primeira vez com o público, diversos de seus trabalhos plásticos e alguma documentação biográfica de seu arquivo aberto: são desenhos, pinturas, colagens, assemblages, partituras, álbuns solo, objetos pessoais, peças têxteis, registros fotográficos, vídeos, artigos midiáticos impressos, um conjunto de manuscritos de próprio punho e uma coleção repleta de materiais gráficos sobre sua trajetória artística, que desde os anos 1960, e com forte sentido, nos alcança até os dias de hoje.

“Transmigração”, título desta mostra, é tomado emprestado da obra musical de autoria de Clarisse Leite Dias Baptista, mãe de Arnaldo que foi pianista, concertista e compositora. Gravada, originalmente, com data incerta em som estéreo tetrafônico dentro do piano de cauda Petrof da residência familiar à Rua Venâncio Ayres, no bairro da Pompéia, capital paulista, foi mixada para dois canais a posteriori.

Etimologicamente o termo, do latim transmigrare, baseia-se na noção de que a alma pode migrar de um corpo para outro, seja este um ser humano, animal ou inanimado. Tal concepção de vida está presente em culturas tribais de diferentes regiões do planeta, como em certos povos da África, grupos indígenas da América do Sul e aborígenes da Oceania. Aparece também em livros herméticos e de ocultismo resgatados durante a formação do pensamento no período renascentista europeu, portanto, em paralelo às práticas correntes do cristianismo e judaísmo de época.

A ideia é ressurgida com algum interesse quando mostra-se ancorada à tradição filosófica da Grécia clássica, sobretudo vinculada, na atualidade, à Platão e aos estudos pitagóricos. Alguns dos trabalhos exibidos mais se parecem com veículos de locomoção e acesso a estruturas sonoro-espaciais de outros tempos, seres e lugares.

Estão presentes na exposição variadas práticas estéticas: desenhos que aludem a viagem de motocicleta que o artista fez com um amigo aos Estados Unidos no início da década de 1970, fórmulas de seus estudos espontâneos em astronomia, testes para tipografia e lettering de sua própria autoria, um conjunto de cartões postais com o qual ativava a sua participação na rede de arte-correio, obras plásticas que remetem a títulos de canções e capas de álbuns gravados, uma série de camisetas pintadas à mão datada da década de 1990, jaquetas originais da década de 1960 usadas em shows, fotografias promocionais e capas de disco, posters das turnês do retorno da banda Os Mutantes nos anos 2000 pelo Reino Unido e Estados Unidos, uma coleção efêmera de convites e filipetas de concertos importantes de sua trajetória como músico, estações de música para o público ouvir os seus álbuns solo e um completo dossier de mídia para consulta do visitante com um apanhado de como a mídia nacional e estrangeira tem tratato a genial carreira de Arnaldo Dias Baptista.

Com “Transmigração”, não obstante um mero projeto de equipe, sempre fomos fãs de Arnaldo. No mundo da arte, ter imemorial respeito e admiração por um artista, raramente, é algo que caia lá muito bem. Por ser Arnaldo então alguém que já conhecíamos de muito tempo atrás, reconhecíamos os seus gestos e sinais de luta, de resistência, por ter enfrentado a censura e o cerceamento dos direitos de cidadania durante os anos de chumbo da ditadura civil-militar, mas principalmente por ter encarado o descaso destrutivo e inconsequente por parte de certos amigos e alguns profissionais de sua geração, bastante intolerantes ao seu talento, brilhantismo, loucura e espírito libertário – logo ele, que jamais deixou de ter sido por um dia sequer o artista absolutamente radical que sempre foi, e que continua sendo. A irresponsabilidade histórica, muito ao contrário do que se quer impunemente fazer pensar, não é uma hipótese, e sem dúvida, não será uma escolha.

Para o que foi posto e proposto poder acontecer plenamente em vida, com a mais pura energia da cultura visual do rock, esta exposição também trata dos encontros, de quando determinada força artística nos atinge no momento em que a achamos, para não mais conseguirmos perdê-la de vista. A exibição de obras e documentos de Arnaldo Dias Baptista concentra, em sua pulsação essencial, o magnetismo e a natureza coexistentes do ateliê de artista e do estúdio de músico, com sua ordem e estilo fascinantes: o acumulativo, o anacrônico, o atemporal. Sound & Vision. Com seu inegável carisma de Presidente da Associação dos Possuidores de Amplificadores Valvulados, Arnaldo divide multidimensionalmente conosco e com seus incontáveis fãs o ambiente expositivo de “Transmigração ” que, por ventura, permanece talvez e ainda saudavelmente incapturável, alheio às segundas intenções do espaço de especulação comercial do sistema das artes.