ARNALDO DIAS BAPTISTA

MUTANTES AO VIVO – BARBICAN THEATRE – LONDRES
(Sony & BMG, 2006)

Produção: Sérgio Dias

A volta do Mutantismo

O Rock and Roll já é um senhor de mais de 50 anos. Enfim, o tempo lhe permitiu começar a acertar uma dívida histórica. Isto é, uma dívida futura: “como entender, assimilar e conviver com seu passado?”. Como viver e entender o “sofrer”, como cantou Tom Zé, “de juventude”?

O escritor Rubem Braga, falando sobre a crônica jornalística, comentou: “A verdade não é o tempo que passa, a verdade é o instante”. Se o Rock é volátil, um gás, como cantou Jimi Hendrix, como viver a eternidade do instante? Como viver esse único tempo?
B. B. King completa, este ano, 83 anos. Para os fãs do Blues, ele não está velho. João Gilberto está com 76 anos. E ainda é o grande nome da Bossa Nova.

O Rock, enfim, começa a entender o jogo dialético entre “tempo” e “instante”, entre o que já está inscrito na história e o que ainda esgarça, com inventividade, a história.
A volta dos Mutantes vem, em boa hora, saldar essa dívida e responder, de vez, a questão: “se o grupo foi e é o exemplo mais perfeito da revolução do rock brasileiro e um dos maiores nomes do rock internacional, por que encapsular sua trajetória em apenas cinco anos (1968-1972) de produção fonográfica?

O acervo do Beatles, vez ou outra, é bem revisitado por Paul McCartney e George Martin. Por que não permitir que a revolução-Mutantes continue?
Tirando o fogo amigo (as críticas de Rita Lee e a recusa de Liminha), quando foi anunciada a volta do grupo, as expectativas foram as mais diversas, da dúvida ao medo, de alívio ao “até que enfim”.

Mas o que poderíamos esperar dessa volta? Como o núcleo Arnaldo Baptista – Sérgio Dias & Dinho se comportaria “quimicamente” trinta e cinco anos depois? Quem e como substituir a voz emblemática de Rita Lee? De que instrumental e de quais arranjos vestir “clássicos” que trazem o grupo em seu apogeu sob a maquinaria sonora do maestro Rogério Duprat?

A resposta foi sábia. O grupo ressurgiu no “exílio”, longe das expectativas e das ansiedades, em um evento em Londres que comemorava a Tropicália para além dos muros musicais, a mostra/exposição “Tropicália – a revolution in brazilian culture”. Que fez um mapeamento amplo do movimento: música + poesia + artes plásticas + cinema + teatro + arquitetura + dança + política + teoria + história. Com um show no The Barbican Center, em Londres, Inglaterra, em maio de 2006.

O material-show/disco, lançado agora em CD/DVD, é impecável. O grupo, sob a batuta de Sérgio e a criatividade de Arnaldo, conseguiu unir o mais experimental da Tropicália aos melhores elementos da psicodelia, de ontem, hoje e sempre.

Hoje o grupo tem dez integrantes: os oficiais: Arnaldo Baptista, teclados e voz; Sérgio Dias, guitarra e voz; Dinho Leme, bateria; mais a voz, em participação mais do que especial, de Zélia Duncan, uma mutante por natureza; os backing vocals de Fabio Recco e Esmérya Bulgari; os teclados de Vitor Trida e Henrique Peters; o contrabaixo de Vinicius Junqueira; e a percussão de Simone Soul.

O repertório é um “the best”. Há música dos cinco álbuns, da fase heróica, do grupo. Do primeiro disco, “Os Mutantes”, de 1968: “Panis et circencis”; “Minha menina”; “Bat macumba”; “Le premier bonheur du jour” e “Ave Gengis Khan”. Do álbum “Mutantes”, de 1969, “Dom Quixote”; “Dia 36”; “Fuga n.2” e “Caminhante noturno”. Do “A divina comédia ou ando meio desligado”, de 1970, “Ando meio desligado”; “Ave Lúcifer” e “Desculpe, babe”. Do “Jardim elétrico”, de 1971, “Top top”; “Technicolor”; “El justiciero” e “Virgínia”. E do “Mutantes & Seus Cometas No País do Baurets”, de 1972, “Cantor de mambo”; “Balado do louco” e “A hora e a vez do cabelo crescer”.
Sérgio Dias está em uma forma impressionante. Zélia Duncan, mesmo participando pouco, mostra que a escolha foi acertada. Arnaldo aparece com suas tiradas surreais e seu vocal característico. Dinho continua preciso e fundamental. Os demais músicos assumem, com louvor, a função de co-participantes.

A caixa – com dois CDs e um DVD –, lançada pela Sony & BMG, mostra na íntegra o show de Londres. CDs e DVD trazem a mesma sequência, como em um jogo de mise-en-abyme, de bonecas russas, dentro da maior, outra e outra e outra…
Começa com a poesia concreta (à maneira mutantista) de “Don Quixote”, com suas aliterações e paronomásias, e termina com a crueldade tropicalista de “Panis et circensis”, de Gilberto Gil & Caetano Veloso. Ao longo do show, o tempo vai e volta. Pára e retorna. Como coisa móvel, flexível, sem cronologia. Como se o grupo, na verdade, em seu período áureo (68-72), tivesse lançado um longo álbum quíntuplo. As canções embaralhadas mostram melhor a planta baixa o plano-piloto do estilo-Mutantes.

Provando, mais uma vez, que o grupo não é apenas um nome na plêiade-Rock. Mas um “modo de fazer”, um estilo, um subgênero, para usarmos uma terminologia de Roy Shuker (“Vocabulário da música pop”), dentro do próprio Rock: o Mutantismo.
O que explica a admiração de artistas tão diferentes em relação à obra do grupo. De David Byrne a Kurt “Nirvana” Cobain. Passando por Beck, Sean Lennon, Beastie Boys, Pizzicato Five e Belle & Sebastian.

Afinal, o que foi apresentado nessa “reestreia” é apenas um pequeno – mas significativo – extrato do “baú dos Mutantes”, ainda há material para pelo menos dois novos lançamentos. O que virá, ainda não sabemos. Mas, com certeza, é mais combustível (não-poluente). Provando que, ainda vale a pena continuar com e na revolução-Mutantes. (Marcelo Dolabela – bhz julho/2007).

CD I
01 – Don Quixote
02 – Caminhante Noturno
03 – Ave Gengis Khan
04 – Tecnicolor
05 – Virginia
06 – Cantor de Mambo
07 – El Justiciero
08 – Baby
09 – I’m Sorry Baby
10 – Top Top
11 – Dia 36

CD II
01 – Fuga nº II
02 – Le Premier Bonheur du Jour
03 – Dois Mil e Um
04 – Ave Lucifer
05 – Balada do Louco
06 – I Feel a Little Spaced Out
07 – A Hora e a Vez do Cabelo Nascer
08 – A Minha Menina
09 – Bat Macumba
10 – Panis et Circensces