BUILD UP – RITA LEE (Polydor – 1970)
Direção Musical: Arnaldo Baptista
A música pop se funda na relação entre novidade e redundância. Nesse jogo dialético, podemos medir o grau de importância de um artista e de uma obra.
Os LPs “Build up” e “Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida”, primeiros álbuns solos de Rita Lee, lançados, respectivamente, em 1970 e 1972, só podem ser lidos se bem entendida essa relação.
São praticamente inclassificáveis. São obras solos e, ao mesmo tempo, “codas” e complementos da discografia oficial/não-oficial dos Mutantes.
Nesses dois momentos, Rita Lee, ainda, era membro efetivo dos Mutantes. Mas, mesmo assim, se lançou na empreitada de projeto solo.
Atitude, relativamente, normal e salutar. Principalmente se entendermos essa opção como oxigênio para a trajetória de um grupo.
No Brasil, Mingo, dos grupos The Clevers/Os Incríveis, foi o primeiro artista a caminhar por essa vereda.
Porém, o que surpreende nos dois LPs de Rita Lee é que não foi respeitada a regra básica: “seguir um rumo (individual) diferente das propostas do grupo”. Afinal, para fazer “do mesmo”, é melhor fazer “o mesmo”. Isto é, mais um disco do grupo. A partir da década de 1980, essa prática se tornou comum: os titãs Sérgio Brito e Paulo Miklos; Edgar Scandurra e Nazi, do Ira!; Herbert Vianna, do Paralamas do Sucesso; Frejat, do Barão Vermelho; Paula Toller e George Israel, do Kid Abelha. Todos realizaram discos-solos com traços para além dos muros da discografia do grupo.
Com Rita Lee, nessas ocasiões, foi diferente. Foi “o mesmo” inovador. Ou “uma inovação” sobre o mesmo tema. Trocando o nome na capa e no selo do disco – Rita Lee por Mutantes, ninguém perceberia que estivesse ouvindo um álbum solo. Mas como essa troca não foi realizada, estamos diante de dois álbuns exclusivos de Rita Lee. E que só existiriam da forma que foram lançados, como discos solos. Estão, em uma avaliação, mais detalhada, quilômetros de distância da discografia dos Mutantes. Principalmente, se compararmos “Build up” com a hiper-experimentação tropicalista de “A Divina Comédia ou ando meio desligado” e “Hoje é o primeiro dia do resto de sua vida” com a lisergia psicodélica de “Mutantes e seus cometas no País dos Bauretz”, lançados nos mesmos períodos. Dois personagens à procura de um autor? Um personagem se multiplicado em dois autores?
A planta baixa dos dois discos solos são relativamente semelhantes:
(1) composições do núcleo básico – Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias + Liminha;
(2) arranjos de Arnaldo; e
(3) acompanhamento dos Mutantes.
“Build up” serviu de base para o espetáculo “Bulid up eletronic fashion show”, da Rhodia, na Fenit (Feira Nacional da Indústria Têxtil), em agosto daquele ano, que narrava a trajetória e os (des)caminhos de uma artista (Rita Lee) rumo aos estrelato.
Das canções do disco, temos da dupla Rita & Arnaldo: “Sucesso, aqui vou eu (Build up)” e “Macarrão com lingüiça e pimentão”; de Rita e Elicio Decário – que, na época, colaborou com “A Divina Comédia” com “Ave Lúcifer”, parceria com Rita & Arnaldo; e “Hey boy”, com Arnaldo: “Hulla-hulla” –: “Tempo nublado” e “Eu vou me salvar”; de Decário solo: “Precisamos de irmãos” e “Prisioneira do amor”; de Arnaldo: “Calma”; a primeira composição assinada apenas por Rita: “Viagem ao fundo de mim”; e “José (Joseph)”, versão da parceira de tropicalismo Nara Leão de uma composição de Georges Moustaki; e o bolero-beatle “And I love her (And I love him)”.
A faixa-título é a canção-roteiro. Embora o título “Build up” estabeleça a idéia de “construção pública de uma imagem”, o álbum, na verdade, se compõe de canções que sugerem “a construção individual e íntima de Rita Lee”, uma avassaladora “viagem”, como sinaliza uma das canções, “ao fundo de mim”. Tirando o nonsense da letra-receita de “Macarrão com lingüiça e pimentão” e o lirismo de “José”, todas as outras letras são expressamente registradas na primeira pessoa do singular (EU), com pequenas variações para o plural (NÓS) ou desdobramento do EU + VOCÊ:
“Já estou até vendo / meu nome brilhando / E o mundo aplaudindo / Ao me ver cantar / Ao me ver dançar / I wanna be a star… / Eu direi adeus / Aos sonhos meus / Sucesso, aqui vou eu… / Eu vou lutar / Eu vou subir e conseguir…”; “Calma, calma / Sinto, mas tudo que eu quero / É só fugir de você…”; “… Em câmara lenta voar / Eu sinto você me amar…”; “Eu preciso de canções e amigos / De amor, de flores, de abrigo…”; “Estou indo para uma ilha…”; “Onde estará você, meu amor? / Onde estará você?…” e “Eu vou me salvar / Eu vou me salvar / Para garantir a minha vida eterna…”. (Marcelo Dolabela – bhz jul/agosto 2005).
1-Sucesso, Aqui Vou Eu
2-Calma
3-Viagem ao Fundo de Mim
4-Precisamos de Irmãos
5-Macarrão Com Linguiça e Pimentão
6-José
7-Hulla-Hulla
8-And I Love Her
9-Tempo Nublado
10-Prisioneira do Amor
11-Eu Vou Me Salvar