ARNALDO DIAS BAPTISTA

TECNICOLOR (Universal, gravado em1970 e lançado em 1999)

Produção: Carl Holmes

“Tecnicolor” – a penúltima última viagem dos Mutantes

Existem coletâneas e coletâneas de sucesso. Na maioria das vezes, são sofríveis. Acompanham o bel-prazer – ou desprazer – das gravadoras. Quase sempre, com a pretensão de atualizar a obra do artista a onda do momento. Se o período é de romantismo, a coletânea deve trazer as canções mais melosas do artista. Poucos artistas têm suas obras bem administradas. Beatles; Madonna; Prince. Roberto Carlos; Marisa Monte; Paralamas do Sucesso.

Os contratos de cessão de direitos fonográficos ainda continuam na idade da pedra. Para as gravadoras, tudo – ou quase tudo. O que já é muito. Para os artistas, a possibilidade de fama, riqueza e glória. Como o risco é grande e com a incerteza não se deve brincar, geralmente, um lado (as gravadoras) ganha e o outro (os artistas) perde.
O mais absurdo dessa situação é a falta de gerência do artista sobre sua própria obra. Isso acontece no universo (da música pop) que mais lucro produz. Na literatura, no cinema, nas artes plásticas, esse desmando é raramente aceito.

Assim, a grande vingança desse “dono que nada possui” é quando ele administra sua coletânea como um lançamento, não como uma colcha de farrapos de retalho para encher mais o cofre das gravadoras.

Sem dúvida, a primeira grande obra dentro desse formato foi a gravação do álbum “Tecnicolor” dos Mutantes, em 1970. Era, ao mesmo tempo, uma brincadeira e um passo à frente, uma coletânea e um álbum de carreira. Pois dava nova roupagem para canções já lançadas pelo grupo. Novas roupagens realmente. Não uma gravaçãozinha com um adereço a mais.

O grupo, em sua proposta de “revolução permanente”, no terceiro ano de sua carreira fonográfica (a estreia se deu em 1968 com o álbum “Os Mutantes”), sem medo e sem pudor, revirou e reviu as entranhas de sua história.

Segundo Carlos Calado, “Tecnicolor” é um “título virtual”, provavelmente bem posterior. O álbum foi gravado em Paris, em novembro de 1970, no Des Dames Studio. Sob a produção de Carl Holmes.
O álbum, para seguirmos um conceito da época, faz uma coletânea de versões na melhor acepção do Poema/Processo. Isto é, versões a partir de obras primeiras que se transformam em novas obras. É uma espécie de “Abbey Road” (penúltimo disco dos Beatles) às avessas. Esse disco do “Fab Four” foi gravado depois do último (“Let It be”) e foi lançado antes. Esse dos Mutantes foi gravado antes do “último” (“Mutantes & Seus Cometas no País dos Baurets”) e só lançado duas décadas depois.

O disco é uma antologia especial. Pois reúne repertório recente, do álbum “Jardim Elétrico”, do ano: “Virgínia”; “Tecnicolor”; “El justiciero” e “Saravah”, com sucessos anteriores. Os “hits” tropicalistas: “Panis et circences” (em duas versões); “Bat macumba”; “She’s my Shoo Shoo” (isto é, a jorgeben-tropicalista “A minha menina”) e “Baby”, a canção mais regravada pelos Mutantes (três versões); os clássicos “I feel a little spaced out” (“Ando meio desligado”); “Adeus Maria Fulô” e “I’m sorry” (“Desculpe, babe”); e o tributo aos anfitriões franceses, uma regravação de “Le premier bonheur du jour”, já gravada no primeiro álbum do grupo.

O efeito-Mutantes da empreitada é que o grupo, não se fazendo de rogado, traduziu quase todas as letras para o inglês. Exceto, obviamente, a concretista e intraduzível “Bat macumba”, a brejeira “Adeus Maria Fulô” e a canção francesa. “She’s my Shoo Shoo” ficou mais Jorge Ben ainda. O refrão original, em português, só aparece como coda.

“Tecnicolor” foi lançado em 2000. Além da surpresa pela modernidade sonora, trouxe ilustrações e textos manuscritos assinados por Sean Ono Lennon. Isso mesmo, o filho “inteligente” de Yoko Ono e John Lennon. Que, reza a lenda, disse julgar mais revolucionário o grupo brasileiro do que o olímpico grupo do pai. A colaboração estrangeira foi vista como algum incomodo. Pois, como sempre, a crítica especializada brasileira achou que Sean não era a pessoa mais indicada para conceber a capa. Bobagem, “fosse um dia de sol”, como diria Oswald de Andrade, o preconceito tupiniquim entenderia que esse gesto foi mais uma confirmação de que nosso “Astronauta Libertado”, a cada dia que passa, por mérito, é mais entronizado no Panteão do pop-rock mundial. E que se aprenda de uma vez, parafraseando, Tom Jobim, Os Mutantes, assim como o Brasil, não é uma coisa para amadores.
(Marcelo Dolabela – bhz out/nov 2005).

1-Panis Et Circenses
2-Bat Macumba
3-Virginia
4-She’s My Shoo Shoo ( A Minha Menina)
5-I Feel A Little spaced Out (ando Meio Desligado)
6-Baby
7-Tecnicolor
8-El Justiciero
9-I’m Sorry Baby (Desculpe Babe)
10-Maria Fulô
11-Le Premier Bonheur Du Jour
12-Saravah
13-Panis Et Circenses (reprise)